Recreio, MG: Estudos sobre os irmãos Ferreira Brito

A despeito de críticas que o método recebe de alguns estudiosos, as biografias são um poderoso instrumento para a compreensão dos fatos do passado. Analisar a trajetória dos cidadãos comuns, e não só dos grandes heróis que povoam o material didático tradicional, permite reconstruir os hábitos e atitudes de determinada sociedade em um certo período histórico. E este é um trabalho que pode despertar prazer até mesmo nos jovens estudantes, conforme relata Verena Alberti, em Biografia dos avós: uma experiência de pesquisa no ensino médio. (Rio de Janeiro: CPDOC, 2006. 10p.)

Em nossos estudos sobre o povoamento dos Sertões do Leste, cedo concluímos que seria impossível compreender a história local sem nos determos nas trajetórias individuais. Ao nos convencermos da necessidade de pesquisar a vida concreta dos homens e mulheres que viveram na região, conseguimos compreender algumas interpretações publicadas e encontramos explicações para ações e estratégias adotadas por aqueles grupos.

Sendo assim, passaremos a publicar as informações que pudemos recolher sobre os mais antigos moradores do território que veio a constituir o município de Recreio. E iniciaremos pelos irmãos Ferreira Brito.

Recreio, MG: Dona Guilhermina

Num terreno de 46 metros quadrados com a frente para a linha férrea da Alto-Muriahé, tendo pela direita uma casa ocupada pela Companhia da Leopoldina e pelos lados e fundos os terrenos dos outorgantes, estava a casa ocupada por Dona Guilhermina, viúva de Lino Marques Dias, lavadeira. O terreno com 6 metros e 60 centímetros por 7 metros de fundos, foi aforado pela contrapartida anual de 15.708 réis.

Com este registro concluímos a análise dos documentos relativos aos terrenos que formaram o primeiro núcleo urbano de Recreio.

Veja também:

Costureiras, Lavadeiras e Hotéis

Recreio, MG: Foreira vende casa



Recreio, MG: Josepha Dias

Os viajantes estrangeiros, que estiveram em Minas no século XIX, deixaram suas impressões sobre os povoados por onde passaram. Uma descrição interessante que nos faz refletir sobre a origem de nossas cidades é a de Richard Burton, que aqui esteve em 1867. Em seu livro Viagem do Rio de Janeiro ao Morro Velho, reeditado pelo Senado Federal em 2001, nas páginas 69-70 encontramos a seguinte descrição:

“A igreja de costume fica na frente da praça, a casa grande de costume fica no fundo da praça e o chafariz de costume no meio da praça; daí o ditado: ‘O chafariz, João Antônio e a matriz’, que descreve a constituição dessas localidades. Em torno da grande praça, vêem-se chácaras, utilizadas pelos fazendeiros ricos nos domingos e dias-santos; durante o resto do ano, ficam fechadas. Há meia dúzia de vendas, que não vendem nada. Como é costume no Brasil, o cemitério ocupa uma elevação bem visível, e as moradas dos mortos estão muito mais bem situadas que as dos vivos”.

Os nossos povoados tomaram esta feição por terem sido formados, na maioria dos casos, em torno da Igreja Matriz. Mas este não é o caso de Recreio que, conforme sabemos, surgiu a partir da Estação da Estrada de Ferro da Leopoldina. E foi em torno dela que os primeiro moradores se localizaram.

Na medida em que vamos registrando a ocupação daqueles pioneiros, podemos perceber que o Arraial Novo atraiu prestadores de serviços variados. Como é o caso de Josepha Dias, cuja casa avizinhava-se pela esquerda com Candido Neves, pela frente com a pequena rua fronteira à estação, pelos fundos com terrenos da Fazenda Laranjeiras e pela direita com a linha férrea da estrada Alto-Muriaé. Segundo se depreende dos registros, Dona Josepha foi autorizada a ocupar o terreno de 7 metros e 70 centímetros por 10 metros de fundos com o fim de prestar seus serviços de lavadeira numa pequena casa coberta de telhas, construída por ordem do proprietário da Fazenda. E quando o Banco do Brasil autorizou Ignacio Ferreira Brito a celebrar os contratos de aforamento, Josepha Dias assinou o seu a 9 de abril de 1885, aceitando pagar anualmente 26.180 réis.

Recreio, MG: Presença Feminina

Muitas devem ter sido as mulheres que participaram da urbanização de parte das terras da Fazenda Laranjeiras, transferindo residência para o local onde nascia um povoado. Poucas, entretanto, aparecem como responsáveis por contrato de aforamento. Uma delas foi IGNEZ MARIA DE MAGALHÃES, costureira.

Interessante observar que, diferentemente dos outros moradores, a casa em que ela residia era coberta de sapê. O terreno era pequeno: 9 metros por 4 metros de fundo. Os vizinhos: Julio de Moraes Tavares à esquerda, os outorgantes à direita, os trilhos junto da estação nos fundos. Na frente de sua casa passava a pequena rua, já citada, e que parece ser a via de acesso à plataforma de embarque.



Veja também:Costureiras, Lavadeiras e Hotéis

Recreio, MG: Outro Negociante

Conforme vimos até aqui, entre os primeiros moradores do Arraial Novo alguns eram empregados da Estrada de Ferro da Leopoldina, um era hoteleiro e um outro trabalhava a jornal. Havia ainda um outro negociante: SERAFIM TEIXEIRA DA LUZ. Entretanto, não consta do registro o tipo de atividade a que se dedicava, informando apenas que o aforamento referia-se a um terreno de 20 metros por 20 metros e 95 centímetros de fundos, contendo uma “ [...] casa térrea coberta de telhas que devisa pela frente com a Estação, pelos lados com terrenos dos outorgantes, pelos fundos com o pasto da Fazenda das Larangeiras pertencente aos mesmos outorgantes”.


Veja outros comentários em que este personagem é citado:

Antigos Hotéis de Recreio, MG

Recreio, MG: Memória da Cidade na Internet

Serafim Teixeira da Luz

Recreio, MG: Trabalhador Jornaleiro

Sabe-se que, naquela época, as pessoas que alugavam sua força de trabalho por períodos determinados eram conhecidas comojornaleiras”, ou seja, recebiam pagamento por jornada. Este era o caso de ANTONIO POETA, que ocupava uma “casa térrea coberta de telhas que devide pela frente com os trilhos da Alto-Muriahé, pelos lados e fundos com terrenos dos outorgantes”, num terreno de 4 metros e 70 centímetros por 5 metros e 40 centímetros de fundos. No dia 10 de abril de 1885, no hotel de propriedade de Ignacio Ferreira Brito, localizado no Arraial Novo, Antonio Poeta assinou o contrato de aforamento comprometendo-se a pagar 8.629 réis anuais.

Recreio, MG: Provável limite do povoado

O quarto e último ferroviário a assinar o termo de aforamento foi Joaquim Pereira Leitão. O terreno que ocupava, com 10 metros e 30 centímetros por 20 metros de fundos, divisava exclusivamente com terras da Fazenda das Laranjeiras, na estrada “que vae para Conceição Arrayal” conforme indica o registro. Sendo assim, acreditamos que este seria o ponto limítrofe, a sudeste, do perímetro do Arraial Novo.

Outro ferroviário: José Vaz da Silva

Em sua obra Formação de Cidades no Brasil Colonial, Paulo Santos lembra que a maioria das cidades brasileiras surgiu de maneira espontânea: “Não se cogitou de fundá-las. Simplesmente nasceram”. (2001, p. 49). Mais adiante, ao tratar das cidades brasileiras do século XV ao XIX, o autor lista algumas causas para o nascimento de nossas áreas urbanas, como “cidades de conquista do interior, do café, da borracha, da indústria”, etc.

Recreio nasceu nos anos finais do Império do Brasil e talvez seja adequado dizer que foi uma “cidade da ferrovia”. Não teria havido uma intenção direta em sua fundação. Ela foi formada a partir de uma estação da estrada de ferro construída para escoar a produção agrícola. Cremos não ser adequado defini-la como “cidade do café” porque, ao tempo em que a estrada passou a operar efetivamente, um outro objetivo tinha sido agregado à ferrovia: transportar os imigrantes que vinham substituir o braço escravo.

De todo modo, nada nos é lícito afirmar sobre as intenções de Ignacio Ferreira Brito ao conceder o direito de uso das terras de sua Fazenda Laranjeiras aos primeiros moradores do que se denominou Arraial Novo. Entre eles, JOSÉ VAZ DA SILVA, empregado da Estrada de Ferro da Leopoldina, ocupava “uma casa térrea coberta de telhas que devide pela frente com a Estação, pela direita e esquerda com terrenos dos outorgantes, e pelos fundos com cafezais dos outorgantes”. O terreno com 10 metros e 70 centímetros por 10 metros de fundos, assim como a casa nele construída por Ignacio Ferreira Brito, foi aforado no dia 9 de abril de 1885 por 36.380 réis anuais.

Recreio, MG: O ferroviário Ignacio Fernandes

Empregado da linha férrea, o morador de São José do Alem Parahyba Ignacio Fernandes ocupava, com autorização dos proprietários da Fazenda Laranjeiras, um pequeno lote de terras que media 3 metros e 80 centímetros de frente por 7 metros e cinquenta centímetros de fundos. Segundo o registro, no terreno existia “uma casa terrea coberta de telhas, que devide pela direita com a casa de Julio de Moraes Tavares, pela esquerda com terrenos dos outorgantes, pela frente com a rua fronteira à Estação e pelos fundos com os trilhos da Estrada de Ferro da Leopoldina”. O contrato foi estabelecido através da contrapartida de um foro anual de 4.845 réis.

Conforme se observa, os terrenos variavam bastante de tamanho. Provavelmente não foi planejado um loteamento no entorno da Estação e as ocupações teriam sido autorizadas na medida da necessidade de acomodar os operários da construção da ferrovia e os prestadores dos serviços essenciais.

Recreio, MG: Empregados da Estrada de Ferro

Como não podia deixar de ser, entre os ocupantes dos terrenos próximos à Estação do Recreio encontravam-se alguns empregados da empresa concessionária. Entre eles, CANDIDO NEVES foi o primeiro a assinar a escritura de aforamento de 191 metros quadrados. Era o dia 8 de abril de 1885, mesma data em que outras escrituras de aforamento estavam sendo registradas pelo escrivão do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista.

O terreno ocupado por Candido Neves, com autorização dos proprietários-outorgantes, tinha “19 metros e um decimetro de frente” e nele existia uma casa assoalhada e coberta de telhas, com duas portas e uma janela para os fundos, confrontando pela direita e esquerda com outras casas dos outrorgantes, e na frente com uma pequena rua junto da Estação da Estrada de Ferro da Leopoldina. Nos fundos da casa ocupada por Candido Neves passavam os trilhos da linha férrea Alto Muriahé.

Recreio, MG: Em busca de outro personagem: José Fernandes Júnior

Segundo Michael Pollak em Memória, Esquecimento e Silêncio, “a referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos” e defender “as fronteiras daquilo que um grupo tem em comum, incluídos o território e os personagensque construíram a história do próprio grupo. Em outro texto, discorrendo sobre a identidade individual e social o mesmo autor lembra que a memória tem papel preponderante na (re)construção da identidade, sendo “constituída por pessoas, personagens, acontecimentos e lugares”.

Baseando-nos neste sociólogo austríaco, não podemos deixar de lembrar que é dele o conceito de personagens freqüentadas por tabela”, ou seja, aqueles que nós não conhecemos pessoalmente por não pertencerem ao nosso “espaço-tempo”. Entretanto, ao sermos informados sobre suas trajetórias, transformamos estes personagens em partícipes de nossa identidade social. E é assim, com o objetivo de recuperar para a memória coletiva os seus componentes fundamentais, é que seguimos falando dos acontecimentos, dos lugares e dos personagens que escreveram os primeiros capítulos da história de Recreio.


Nos primórdios do então Arraial Novo, a casa de Miguel Bento Borba avizinhava-se, pela direita, com benfeitorias do morador José Fernandes Júnior, outro foreiro das terras da Fazenda Laranjeiras. Da mesma forma que os demais moradores, no aforamento consta que ele ocupava, com autorização de Ignacio Ferreira Brito, um terreno junto da Estação.


José Fernandes Júnior vivia em uma “casa térrea, coberta de telhas, que divide e confronta pela frente com a pequena rua queacesso à Estação e pelos fundos com a linha férrea do Alto-Muriahé”. Segundo o registro, o terreno media 29 metros e 70 centímetros por 19 metros e 50 centímetros, resultando num foro anual de 196.911 réis, calculado na base de 340 réis por metro quadrado.

Recreio, MG: Mais um morador do Arraial Novo

O acordo estabelecido entre a Estrada de Ferro da Leopoldina e os proprietários da Fazenda das Laranjeiras não contemplou apenas a cessão do terreno por onde passariam os trilhos. Conforme já foi visto, o negociante Julio Moraes Tavares tinha sido autorizado a estabelecer-se em terreno contíguo à Estação do Recreio. Assim como ele, outros personagens surgem da leitura dos livros do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista. Alguns eram funcionários da estrada de ferro.

Um deles foi Miguel Bento Borba, que assinou o contrato de aforamento no dia 10 de abril de 1885, relativo a um terreno com uma casa térrea coberta de telhas. O ferroviário era vizinho, à esquerda, de Julio Moraes Tavares. Na frente de sua casa estava a “pequena rua da Estação” e nos fundos a Fazenda das Laranjeiras. O terreno aforado por Ignacio Ferreira Brito a Miguel Bento Borba media 10 metros e 50 centímetros de frente por 19 metros e 50 centímetros de fundos. O foro anual foi estabelecido em 69.615 réis.

Recreio, MG: Dois hotéis no Arraial Novo

Em abril de 1885, a Estação do Recreio era o centro do Arraial Novo, mais tarde referido como Arraial do Recreio. Em seu entorno existiam algumas construções sendo a maior delas o Hotel do Recreio, de propriedade de Ignacio Ferreira Britto e sua mulher Mariana Ozória de Almeida.

Segundo o citado livro do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista, relativo ao período 1884-1885, folhas 124 a 127, duas das outras construções do local eram ocupadas por Julio Moraes Tavares, a quem foi outorgado o aforamento no dia 7 de abril de 1885. Uma delas erauma casa assoalhada coberta de telhas, com [...] cinco portas e cinco janellas na circunferencia, e um jardim ao lado [...] em que o outorgado tem negocio, hotel e bilhar”. Portanto, além do Hotel do Recreio o Arraial contava com um outro ponto de hospedagem, construído em terrenos da Fazenda das Laranjeiras.

O terreno ocupado por Julio Moraes Tavares limitava-se, pela frente, comuma pequena rua em que estão algumas casinhas juntas aos trilhos e em frente a Estação da Estrada de Ferro da Leopoldina, e no fundo com os trilhos da Estrada de Ferro do Alto Muriahé”.

O registro informa ainda que o terreno occupado como se disse pelo outorgado, tem vinte e um metros e oitenta centimetros quadrados de frente, e treze metros e quarenta centimentos quadrados de fundo; e da mesma Fasenda desmembrão mais um pequeno terreno em frente ao que está descripto, e mais proximo a Estação, com quarenta e seis metros quadrados, na qual se acha uma casinha coberta de telhas pertencente ao outorgado, com duas portas e duas janellas em sua circunferencia, a qual tem de frente treze metros e cincoenta centimetros, e de fundo quatro metros quadrados”.

O aforamento deste e dos demais terrenos desmembrados da Fazenda das Laranjeiras obedeceu aos seguintes parâmetros:

a) dos quaes terrenos elles outorgantes fazem afforamento perpetuo, por si seus herdeiros e sucessores, pelo fôro annual de quatro centos e oitenta reis, digo pelo fôro de trezentos e quarenta reis pelo metro quadrado

b) a penção em fôro annual de dois terrenos no qual se contem duzentos e noventa e cinco metros e sessenta centimetros quadrados, vem a sêr de cem mil quinhentos e quatro reis, cuja quantia será paga em prestações semestrais a razão de cincoenta mil duzentos e cincoenta e dois reis, a contar da data da presente escriptura em diante, e deixando o outorgado ou seus sucessores de pagar um anno vencido, pode ser demandado executivamente, a cuja prompta solução de fôro em forus desde fica hyppothecado o dominio util dos mesmos terrenos e benfeitorias existentes, e as que ai crescerem

c) deixando elle afforeiro de pagar os forus por trez annos successivos perderá o dominio do dito terreno e suas bemfeitorias, que então existirem por comisso para elles senhoriais

d) elle foreiro não poderá alienar ou por qualquer maneira se desfazer da posse do terreno e suas bemfeitorias sem expressa licença do senhorio, affrontando as alienações para poder optar conforme lhe fôr conveniente debaixo da dita pena de comisso

e) por seu turno os senhorios dentro de dez dias da data em que lhe fôr data a sciencia da alienação e do preço que a apagar o comissario, não usando seu direito de opção, perderá a preleção para o fim de se realizar a allienação com o terceiro com quem tiver contractado

f) pagará elle foreiro aos seus sucessores o laudemio de dez por cento regulado pelo preço da allienação, ficando o mesmo terreno e bemfeitorias hypottecados a este laudemio para o sinhorio o poder haver do vendedor ou comprador, ficando entendido que este laudemio e foro não poderá elle foreiro pedir em tempo algum reducção por qualquer caso fortuito, cogitado e não cogitado; e nem tão pouco elles sinhorios e seus successores lhe poderão augmentar o laudemio e fôro, qualquer que seja o augmento do valor intrincico do terreno afforado

g) o foreiro se obriga a cercar os terrenos que ora lhe são limitados, e prefixal-as por balisas provisorias, e não ultrapassal-as sob pena de serem desmanchadas quaesquer bemfeitorias a custa delle foreiro; como obrigão-se a respeitar a lavoura e terrenos delles senhorios, não concentindo que sejão imvadidas por seus animaes

Consta também do registro do aforamento a Julio Moraes Tavares quepelo outorgado mais foi dito que parte de seu predio tendo sido construido com madeiras tiradas dos matos delles outorgantes; como indemnização dessas madeiras e do desfructe que tem tido até hoje dos terrenos afforados, offerece, e os outorgantes aceitão a quantia de seis centos mil”.


Leia outro artigo sobre este assunto:Foreira vende casa


Citações e Transcrições

Agradecemos também aos visitantes que estranharam vocabulário e ortografia em alguns posts. Apesar de termos usado a formatação das fontes em itálico para destacar as citações, parece não ter ficado claro que os documentos de origem foram redigidos sob antigas normas da língua padrão.

Pedimos a compreensão de nossos leitores. Optamos por respeitar a forma nas transcrições e procuraremos fazer comentários sempre que um trecho parecer incompreensível.

Recreio, MG: Boqueirão dos Bagres

Três visitantes deste blog comentaram o post de 20 de dezembro, sob o título O Arraial Novo e a Estação. Todos apoiam-se em literatura onde o nome aparece como Boqueirão dos Bugres e não dos Bagres o ponto onde a ferrovia seria bifurcada.

Ao tempo em que agradecemos as visitas, lembramos que no Relatório da Presidência da Província de Minas Gerais, do ano de 1876, página 36, o nome é Boqueirão dos Bagres mesmo. Além disso, nos Registros de Terras de 18 de fevereiro de 1856, algumas propriedades são identificadas pela vizinhança com o Ribeirão dos Bagres. Portanto, fica reiterado o nome conforme constou no texto de 20 de dezembro.

Certidão de Nascimento de Recreio, MG: o aforamento das terras do Arraial Novo

A Fazenda das Laranjeiras – ou parte dela, estava hipotecada ao Banco do Brasil. Era o ano de 1885 e os proprietários requereram autorização para alienar a área próxima à Estação do Recreio. Assim, os registros encontrados no Livro do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista constituem-se numa espécie de Certidão de Nascimento da futura cidade de Recreio. Nas folhas 127 e verso do livro relativo aos anos de 1884 e 1885, encontra-se o seguinte:

Registro de uma autorisação do Banco do Brasil do theor seguinte: = nº 1672 – O Banco do Brasil, representado pelo seo Presidente, abaixo assignado, e na qualidade de credor hypothecario do Capitão Ignacio Ferreira Brito e sua mulher, lavradores no Municipio da Leopoldina, concede a preciza autorisação pra que possão aquelles devedores alienar o dominio util de cerca de dois hectares do terreno da fazenda das Larangeiras, terreno que fica junto à Estação do Recreio, por meio de contractos de aforamento, devendo o Banco ser informado dos nomes dos foreiros, quantidade de terreno aforado e preço do aforamento; continuando a garantia hypothecaria sobre o dominio directo da parte do terreno alienado. Rio de Janeiro doze de Março de mil oito centos e oitenta e cinco. J. Machado Coêlho de Castro. Estava uma estampilha de duzentos reis, devidamente inutilisada pela data e assignatura. Nada mais se via estar em o dito papel de autorisação, que fielmente copiei do proprio original a que me resporto, dou fé, e assigno em sete de Abril de mil oito centos e oitenta e cinco. O Escrivão, Carlos Rebollido Pinheiro.

Mudanças no traçado da Estrada de Ferro da Leopoldina

Pelo estudo realizado, observamos que os planos para a construção da Estrada de Ferro da Leopoldina foram modificados algumas vezes, com revisão do traçado inicialmente previsto. Os relatórios da presidência da Província deixam claro que o objetivo primordial da ferrovia era atender ao escoamento da produção agrícola, não se prendendo à localização das cidades. Como exemplo, citamos a seguinte fala: “o terreno é todo accidentado e improdutivo, oferecendo uma construcção para a estrada de grandes dificuldades e despezas”. Prosseguindo, a autoridade argumenta que a estrada deve favorecer diretamente as florescentes lavouras e que os poderes públicos não devem menosprezar as dificuldades e gastos exorbitantes, de modo a tornar “reaes os seos beneficios e reconhecidas vantagens, para que não esmoreça o espirito de iniciativa, que mal disperta na provincia”. Ou seja: ao apresentar projeto de alteração, que precisava de aprovação da Assembléia Legislativa, o orador chama a atenção para a necessidade de evitar onerar a empresa construtora.

Acreditamos que tais argumentos possam ser contestados pela vertente dos interesses políticos que cercaram a obra. De todo modo, percebe-se que a mudança de um percurso, como foi o caso entre Conceição da Boa Vista para o Arraial Novo, levou também em consideração as dificuldades do trajeto inicialmente previsto.

Esta argumentação se repete quando, em 1875, é analisada outra mudança que levaria os trilhos para Vista Alegre. Diz o relatório que a modificação, importando um afastamento de cerca de 6km da cidade da Leopoldina, em nada prejudica a zona que tinha de ser precorrida e procura o natural prolongamento da estrada. E diz mais: “cumpre attender que este facto traz lucros à lavoura, à empreza e aos cofres publicos, e não estamos ainda em circumstancias de fazer estradas de ferro que prefirão o commercio das cidades aos interesses da lavoura; porquanto esta é quase que a nossa unica fonte de rendas, e não temos e nem poderemos ter tão cedo cidades que por sua industria possão, não digo sustentar por si caminhos de ferro, mas obrigar estes a deixar em seo proveito, aliás incerto e fallivel, os productos conhecidos de uma agricultura já feita e que se augmentrá infallivelmente com as facilidades de transporte e de consumo”.

A estrada de ferro Alto-Muriaé

Outro fator a acelerar a urbanização do então Arraial Novo foi a estrada de Ferro Alto-Muriaé. Segundo o relatório da Presidência da Província de Minas Gerais, de 4 de maio de 1881 o presidente da Companhia Estrada de Ferro Alto Muriaé, Dr. Custódio José da Costa Cruz, informou que no dia 5 de janeiro daquele ano a Companhia foi instalada, com o fim de executar o contrato assinado com a Província em 11 de agosto de 1879. Trata-se do contrato para construção de uma linha férrea entre a Estação do Recreio e o povoado de São Francisco do Glória.

Observa-se que decorreram dois anos entre a assinatura do contrato de concessão e a organização da companhia construtora. A partir de então, e segundo o mesmo documento, entre janeiro e abril de 1881 foram “explorados e estudados 6 (seis) quilômetros da nova estrada, entre a Estação do Recreio e o Capivara”. Parece claro que construção da estrada só teria sido iniciada posteriormente, já que no relatório seguinte, de 12 de dezembro de 1881, o presidente da Província informa que aprovou os estudos sobre os primeiros 29 quilômetros da ferrovia Alto-Muriaé.

Confirmando tais informações, o relatório da Presidência da Província, de 1 de agosto de 1882, informa que naquele ano foram iniciados os trabalhos de construção dos 29 quilômetros da estrada, a partir da Estação do Recreio. Acrescente-se que somente em 1885, por ocasião da urbanização das terras da Fazenda Laranjeiras no Arraial Novo, surgem referências sobre esta ferrovia nos livros cartoriais de Conceição da Boa Vista.

O Arraial Novo e a Estação

Consultando os livros do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista relativos ao período 1869 a 1885, constatamos que a partir de 1877 começam as referências ao “Arrayal Novo que se está fundando neste Distrito”. Procurando as origens deste povoado, fizemos algumas buscas em documentos relativos à Estrada de Ferro Leopoldina, que seria a origem da atual cidade de Recreio.

A autorização para construir a estrada de ferro ligando Porto Novo do Cunha a Leopoldina veio com a Lei Mineira nº 1826, de 10 de outubro de 1871. Três anos depois, em outubro de 1874, foram inauguradas as estações de Porto Novo e Volta Grandre. Mais um ano e meio e, em dezembro de 1874, inaugurava-se a estação de Providência, de onde partiriam os trilhos para atingir Conceição da Boa Vista. Em agosto de 1876 foi inaugurada a estação de Campo Limpo, atual Ribeiro Junqueira. Sendo assim, os trilhos teriam cruzado o território do atual município de Recreio entre 1874 e 1876 e não parece viável que a Estação do Recreio tenha começado a operar em julho de 1874, como informa o site da Prefeitura Municipal de Recreio.

Para avalizar nossa opinião, além dos registros de transmissão de propriedade consultamos os relatórios da presidência da Província de Minas Gerais. Assim é que soubemos que no ano de 1875 foram concluídos os 59 km que ligavam Porto Novo do Cunha a Santa Isabel, hoje Abaíba.
Pelo contrato de 3 de maio de 1875, ficou estabelecido, em seu artigo 1º, que “do ponto onde estão concluidos os trabalhos de construcção irá até ao Boqueirão dos Bagres, e d’hai, bifurcando-se, se estenderá, por um lado, até a Cidade da Leopoldina, e por outro até a Villa Cataguazes, antigo arraial de Santa Rita do Meia Pataca”. Entendemos, portanto, que os trilhos foram assentados na região de Recreio entre maio de 1875 e agosto de 1876.

O nome da Estação do Recreio

É também de fonte oral a informação de que Inácio Ferreira Brito não gostava que dissessem que ele era proprietário da Fazenda das Laranjeiras, sempre alegando que esta era propriedade de seu irmão Francisco. Contam que, na tentativa de fixar o nome de sua propriedade – a Fazenda do Recreio, Inácio pediu que a Estação do ramal ferroviário recebesse o nome de Estação do Recreio.Pelo que pudemos apurar nos livros do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista, as duas propriedades – Laranjeiras e Recreio, eram vizinhas. Mas todas as referências à ferrovia, constantes nos livros do cartório, indicam que “deviza com terras da Fazenda das Larangeiras, de propriedade de Ignacio Ferreira Brito e sua mulher, Mariana Ozória de Almeida”